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16 de abril de 2009

GRITOS DAS TREVAS (Parte 11)




(02/06/2003)

Para manter fidelidade ao livro, evitando que partes importantes possam ficar fora do conhecimento do leitor, acrescentamos neste último texto as críticas feitas pelos padres e as defesas do livro. Manteremos a originalidade, sem comentários, apenas para aqueles que quiserem se aprofundar.


APÊNDICE

RESPOSTAS À ALGUMAS CRÍTICAS
PELO PADRE ARNOLD RENZ, SDS.

1. Cristo não aceitou o testemunho dos demônios e ordenou-lhes: Calai-vos.

a) O próprio Cristo estava presente. Ainda não tinha revelado a Sua divindade e não necessitava do testemunho dos demônios. O Pai testemunharia por Ele.
b) Cristo também ordenou aos Seus Apóstolos que se calassem. Depois da Sua Transfiguração no Monte Tabor disse aos Apóstolos: “Não faleis a ninguém desta visão, enquanto o Filho do Homem não ressuscitar dos mortos” (Mt. 17,9).
c) A pouco e pouco Cristo foi preparando os homens para a revelação da Sua divindade. Por esse motivo é que recusou o testemunho dos demônios. Mas permitiu também que eles dissessem: “Nós sabemos quem és: és o Santo de Deus” (Lc. 4,34). Ele poderia ter impedido esta declaração, contudo não o fez.


2. Nós temos os ensinamentos da Igreja, não precisamos do testemunho dos demônios.

a) Os demônios não nos ensinam verdades de fé. Quando falam de si próprios, sobretudo quando dizem o que querem, misturam habitualmente e habilmente a verdade e o erro.
b) Não se devem fazer perguntas indiscretas. Quando isso acontece, deve contar-se com respostas mentirosas. Isto não se aplica só aos demônios, mas também aos videntes e às almas privilegiadas. Infelizmente, são muitas vezes tomados por agências de informações. Por exemplo, uma vez perguntaram ao Santo Cura d’Ars: “O meu marido está no Purgatório?” Ele respondeu: “Isso é que não lhe sei dizer. Nunca lá estive”.
Pelo contrário, noutra ocasião, respondeu: “O homem em questão, salvou-se. Teve tempo de fazer um ato de contrição”. Neste caso havia um motivo especial. Não se tratava apenas de dar a resposta a um pergunta curiosa.
c) A existência dos demônios é um fato. A Sagrada Escritura informa-nos sobre a existência do inferno e dos demônios. O Papa fala da existência e da ação dos demônios. Apesar disso, muitos não o acreditam. Por esse motivo é que a Santíssima Virgem disse ao Padre Gobbi: “O Papa sofre e reza; está sobre uma cruz que o consome e que o mata. Agora, ele também falou, mas a sua voz é como a semente caída no deserto. A minha Igreja transformou-se num deserto, ou em algo ainda pior”.*
Através dos possessos a existência e a ação dos demônios tornam-se palpáveis. Ela é, além disso, um sustentáculo para a nossa fé.
d) As verdades ensinadas pela Igreja estão atualmente reduzidas ao silêncio. Por exemplo, quem falou nestes últimos anos do Inferno e dos demônios? O inferno e os demônios foram praticamente considerados tabu para a pregação da Igreja, do Reino de Deus. Só com o caso Kligenberg** é que o problema voltou a ser discutido à escala mundial.

Resultado: Uma divisão dos espíritos – uns acreditavam, outros negavam a existência de satanás e do inferno. Daí resultou, por outro lado, na negação dos fatos, por outro, uma fé renovada. Muitos, porém, foram levados a refletir sobre o inferno e satanás, o que nunca teria acontecido se não fosse o caso Klingenberg.
e) Nós não necessitaríamos nem das revelações feitas nos lugares de Aparições, nem das revelações de Videntes ou almas privilegiadas, se lêssemos mais seriamente a Sagrada Escritura. Assim, por exemplo, Maria diz ao Padre Gobbi: “As Minhas mensagens multiplicam-se tanto mais, quanto mais a voz dos meus servos se recusa a anunciar a verdade. Aquelas verdades tão importantes para a vossa vida já não são proclamadas, por exemplo: os ensinamentos sobre o Paraíso que vos espera, sobre a Cruz de Meu Filho que vos salva, sobre o pecado que fere o Coração de Jesus e o Meu, sobre o inferno, no qual tantas almas se precipitam diariamente, sobre a urgência da oração e da penitência”.
f) Se os demônios se limitassem a falar de si próprios, tínhamos que recusar as suas revelações. Mas, precisamente nestes últimos casos de possessão, a Santíssima Virgem mostra o Seu poder e a Sua soberania. Ela obriga os demônios a manifestar verdades necessárias à Igreja do nosso tempo, verdades esquecidas que é preciso relembrar.
g) Os ensinamentos da Igreja são recusados, do mesmo modo que as mensagens da Santíssima Virgem nos lugares das Suas Aparições e as revelações das almas privilegiadas. Recusam-se as lágrimas, as lágrimas de sangue da Mãe do Céu. Agora, a Santíssima Virgem tenta ainda um novo meio: as revelações dos demônios. Mas também elas, por sua vez, só são aceitas onde ainda brilha um mínimo de boa vontade.
h) As revelações dos demônios não são senão um favor do Céu, uma prova do Amor pleno de solicitude da Santíssima Virgem.
i) A Santíssima Virgem disse, nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Mas hoje, já não se faz o que Ele nos diz. A Santíssima Virgem repete-nos hoje, mas com mais urgência: “Fazei o que Ele vos disser”. Ela di-lo mesmo através dos demônios, para que nós sejamos salvos e para que contribuamos para a salvação dos outros.
j) Como, Mãe da Igreja, assim a definiu Paulo VI no Concílio, tudo quer fazer para salvar os Seus filhos, os resgatados por seu Filho. Teriam, porventura, as almas menos valor para Ela do que para o inferno, que emprega todos os esforços, que trabalha sem cessar, para as perder?

* Referia-se à alocução de S.S. Paulo VI sobre o demônio. Os textos destas locuções encontram-se em “Nossa Senhora aos Seus Sacerdotais”, Braga, 1986.
** Caso de uma rapariga que morreu durante o exorcismo oficial.

3. Mas como é possível que os demônios falem entre si, falem em detrimento do inferno? Eles só podem querer o mal da Igreja!

a) É claro que os demônios só querem fazer-nos mal. Não nos querem dizer o que contraria o inferno. O seu objetivo principal é denegrir a Igreja, sempre que isso for possível. Mas já Goethe punha estas palavras na boca do demônio: “Eu sou a força que só quer o mal, e que, contudo, pratica sempre o bem”. *
b) O que se passa com os possessos é precisamente isto: o poder da Santíssima Virgem exprime-se de maneira tangível, quando força os demônios a anunciar o bem e a verdade.
c) Os demônios não querem fazer estas revelações. Só as fazem quando são obrigados, sob o poder e as ordens da Santíssima Trindade e a da Santíssima Virgem. Só fazem estas revelações quando, intimados em nome da Santíssima Trindade, da Santíssima Virgem, do Coração Imaculada de Maria ou em nome de Jesus, são obrigados a dizer a verdade e só a verdade. (No texto, estas exigências feitas aos demônios foram, na sua maioria abreviadas ou omitidas, por falta de espaço e para que a leitura não se tornasse excessivamente monótona). Mas sem essas ordens, pode acontecer – como aliás aconteceu – ouvir o demônio exclamar: “Estás a ser insolente.” – Porquê? – interrogou o exorcista – “Dizes apenas: diz a verdade! Se falas só em teu nome, então não somos obrigados a revelar o que quer que seja”!
d) Estas revelações são uma dádiva que o Céu concede à Igreja. Se assim forem consideradas podem fazer muito bem. Para muitas almas, podem significar o bem espiritual e a salvação, para a Igreja, a renovação. Por isso mesmo é que os possessos sofrem tão horrivelmente, sofrem até ao limite do possível. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a jovem Annelise Michel, no caso Klingenberg, que morre depois do exorcismo. A esse respeito, confessarão os demônios: “Nós atormentamo-la para lá de qualquer medida, a tal ponto que deveria ter desesperado e desistido. Nós esperávamos que, no seu desespero caísse nas nossas mãos. Mas não conseguimos alcançar o nosso objetivo! Ela resistiu e nós, demônios, fomos horrivelmente injuriados por lúcifer”. E os demônios acabaram mesmo por confessar: “Se ela não foi imediatamente para o Céu, decerto chegou bem alto, bem alto”.
Aqueles que conhecem a vida da possessa destes “Avisos” puderam verificar os sofrimentos monstruosos que ela desde há anos vem agüentando. Tais sofrimentos e uma vida assim são garantia da autenticidade desta possessão e destas revelações. É por isso que o livro constituirá uma obra importante, para o bem das almas e para a Igreja.
e) O inferno agita-se e procura destruir o livro.
Sem a proteção da Santíssima Virgem e da Santíssima Trindade não se teria conseguido vencer os obstáculos e as dificuldades, e a sua publicação jamais teria sido possível. Os próprios demônios tiveram que reconhecê-lo. Aliás, todos aqueles que nele colaboraram, bem o sabiam, mesmo sem as revelações demoníacas. Estas, só o vieram a confirmar mais tarde.
f) Para os exorcismos e adjurações a partir de 10 de Junho e até 3 de Julho posso dizer que segui as instruções do “Ritual Romanum”, segundo as quais o exorcista não se deve deixar levar no engodo das palavras dos demônios ou por perguntas sobre questões futuras ou secretas, pois não é nisso que consiste o seu trabalho.
g) Pelo desenrolar das “Confissões” verificou-se que a Santíssima Virgem decerto, como um último recurso, quis revelar pela boca dos demônios o que é útil para a Igreja e para o bem das almas. Só neste sentido, é que foram feitas perguntas e exigidas novas revelações, mas “somente a verdade e o que a Santíssima Virgem quer”.
h) Antes das revelações importantes foram exigidas certas e determinadas orações, “para que nós (demônios) sejamos obrigados a dizer a verdade”.
i) Se os demônios não falassem a “linguagem do inferno”, a possessão não seria autêntica. Os demônios voltam sempre a exprimir o seu ponto de vista. O leitor reconhecerá facilmente quando os demônios exprimem o seu próprio ponto de vista.
j) Os demônios estão ligados ao “instrumento”, no seu modo de falar. Também é possível que as idéias do “instrumento” (da pessoa possessa) se misturem com as suas revelações. É por isso que é sempre necessário confrontar as revelações com os ensinamentos verdadeiros da Santa Igreja. “Examinai tudo, retendo apenas o que for bom” – diz S. Paulo.
k) Num tempo em que os demônios são particularmente poderosos – como parece ser agora o caso, parece muito oportuno que a Santíssima Virgem, a vencedora de todos os combates de Deus que há-de esmagar a cabeça a satanás, os force a fazer revelações mesmo contra a sua vontade, para bem dos homens e da Igreja. Também isto é um triunfo de Maria.
m) Se Ela pede constantemente que o livro seja impresso o mais rapidamente possível (porque o tempo urge?), certos pontos mais obscuros não puderam ser acompanhados de notas explicativas.
n) Durante a realização deste livro rezou-se muito. Os próprios demônios pediam constantemente, da parte da Santíssima Virgem, certas e determinadas orações. “Rezai muito ao Espírito Santo”!
Se o leitor, por seu lado, aceitar este convite, decerto tirará grande proveito desta leitura. Há-de receber a luz necessária, mesmo para aquelas passagens que não têm a necessária clareza.

* O demônio pratica e quer só o mal, mas Deus faz com que tudo concorra para o bem daqueles que ama, inclusivamente a ação do diabo.

N.B. – A documentação final esclarece alguns pontos controversos do Exorcismo e dá ao leitor a linha doutrinal da Igreja nestas matérias.

DOCUMENTOS

O QUE É A POSSESSÃO?
Pelo Padre Arnold Renz, SDS

Provas da existência do demônio – Elas encontram-se nos ensinamentos de Cristo nas Sagradas Escrituras; nos ensinamentos do magistério eclesiástico; nos ensinamentos dos Papas, representantes de Cristo. Estes ensinamentos concordam: o demônio existe.

A ação do demônio – O demônio exerce um grande poder, não apenas pela sua ação íntima sobre os homens e pela tentação, para os fazer cair em pecado e os afastar de Deus, mas também pelo seu domínio sobre determinadas pessoas através da possessão.

A Possessão – Embora a possessão não possa ser provada nem confirmada pela Ciência (Psicologia) ela tenta estudá-la, saindo assim da sua competência. A sua existência tem, no entanto, de ser aceita. Mesmo abstraindo dos ensinamentos do Magistério e das Sagradas Escrituras, ela foi experimentada por Santos (por ex: S. João da Cruz, o caso duma religiosa na vida de Santa Teresa de Ávila, o Santo Cura d’Ars e tantos outros). A história da Igreja fornece um grande número de casos de possessão, que não são aqui mencionados.
É preciso grande prudência na aceitação de certos casos de possessão, pois existem doenças psicológicas que se assemelham muito à possessões. Há diferentes fenômenos, ou manifestações, que provam a possessão. O mais evidente á a reação ao exorcismo feito apenas mentalmente: é o chamado “exorcismo probativus.” Mas mesmo neste caso é possível que os demônios se escondam, que não se manifestem e não reajam. No caso de não reagirem, isso não prova que eles não estejam presentes. Mas se reagem, isso prova que há possessão. Um fator importante é fornecido pelo comportamento perante objetos benzidos, relíquias, água benta, medalhas... Mas, neste caso, não é preciso que a pessoa saiba previamente que os objetos estão benzidos.
O comportamento perante a água vulgar e a água benta é um sinal da presença dos demônios. Certas pessoas tem o dom de distinguir a água vulgar da água benta, mas a sua reação não é uma rejeição furiosa. A reação furiosa não se pode explicar dum modo natural.
Um outro sinal comprovativo é o sucesso do exorcismo. Citamos apenas um caso: o dos pequenos possessos de Illfurt(1). Estes demônios puderam ser expulsos. Depois da sua expulsão, por exorcismos que se prolongaram durante dois anos, as crianças ficaram absolutamente normais.

O fracasso do exorcismo será um sinal negativo?

a) Se não há realmente possessão, o exorcismo não pode resultar. Em certos casos pode até mesmo prejudicar.

b) Há casos de possessão que têm um objetivo particular: por exemplo, a purificação de uma pessoa que vive no pecado ou o castigo para uma vida de pecado, mas também há especialmente casos de pessoas que se consagram ao diabo. Tais casos são, na maior parte das vezes, longos e exigem um esforço enorme da parte do exorcista, mas não são casos desesperados, sobretudo se a pessoa tiver boa vontade (o caso de Magda com o Padre Rodewyk) (2).
c) Um caso particular de possessão é o que se chama “possessão expiadora.” As pessoas em causa não são pessoalmente culpadas. Podem, por exemplo, ter sido amaldiçoadas. Porque é que num ou noutro caso a maldição dá efeito e noutros não? Continua a ser um mistério. Se certas pessoas aceitam sofrer por outras, tal disposição pode traduzir-se em possessão. A possessão obriga a um sofrimento horrível. A história mostra que o possessos que sofreram muito tempo não chegam a velhos (o caso dos meninos de Illfurt).
Há possessos que sofrem pela humanidade, pela Igreja ou por determinados grupos de pessoas, por exemplo, Sacerdotes.
d) Quando se consideram certos casos como, por exemplo, o de Nicolau Wolf, de Rippertschwand(3) ou o de Altotting(4), pode-se pensar que estes casos têm uma missão especial a cumprir na Igreja: não só pelos sofrimentos evidentes, mas também pelas suas revelações. Podíamos citar aqui o caso que é objeto desta obra ou o caso Klingenberg(5). As revelações feitas nestes casos devem ser consideradas um testemunho e um auxílio à Igreja nos tempos difíceis que atravessa. Estes casos resistem ao exorcismo até se cumprirem determinados objetivos. No caso de Klingenberg, o sofrimento prolongou-se até à conformação com Cristo e a morte na Cruz. Anneliese morreu de fome e sede.
O demônio declara nesta obra a propósito de Klingenberg: “Deus submeteu esta família e a todos os que tomaram parte no assunto, a uma prova indizível. Ele chamou a Si essa pobre alma sofredora, para que acabasse o seu martírio e pudesse gozar da Beatitude eterna.” Acrescentaram depois: “Mesmo que ela (Anneliese) não tivesse sido imediatamente elevada à eterna Bem Aventurança, ficou muito alto, muito alto”(10 de Junho de 1977). A morte de Anneliese foi permitida por Deus e não devida a um fracasso do exorcismo.

Em que é que consiste exatamente a possessão?

No caso dos possessos, o demônio não só toma posse da alma da pessoa, como é o caso do pecado grave ou “pecado mortal”, como também do corpo e das forças físicas, psíquicas, de modo que a pessoa deixa de poder dispor livremente do seu corpo, do seu espírito e da sua vontade. Outro – o demônio – apoderou-se deles. A pessoa possessa não pode reagir contra o que os demônios querem fazer por seu intermédio. No entanto, uma ponta de inteligência, a mais profunda, e a vontade, podem opor-se a todo o mal que os demônios querem impor. Neste caso, a pessoa não comete qualquer falta. Ainda menos se pode falar de culpa, se durante a “crise”, ou depois dela, a pessoa não se lembra de nada. Foi o caso, por exemplo, das crianças de Illfurth que, no fim, de nada se lembravam do que tinha acontecido durante a possessão.
Muito especialmente, nos casos de “possessões expiadoras”, há o que se chama a possessão lúcida, isto é, a pessoa possessa sabe totalmente ou em parte, o que faz e diz. Nestes casos, estamos perante um sofrimento imensamente penoso, que é suportado com pleno conhecimento.

Causas da possessão – Resumindo: pode haver um pecado grave, que abre as portas aos demônios. Pode acontecer que a pessoa em causa se entregue ao demônio por um pacto assinado com o seu próprio sangue(o caso de uma religiosa, na vida de Santa Teresa de Ávila e S. João da Cruz) que essa pessoa se entregue a práticas ocultas ou que tenha uma intenção especial: reparação ou algo semelhante.
A possessão e a Ciência – Satanás e a possessão pertencem ao sobrenatural. A Ciência não tem acesso ao sobrenatural. Ela ocupa-se dos fenômenos. Se a Ciência discute sobre satanás ou sobre a possessão, ultrapassa os limites da sua competência e não merece crédito. O mesmo se pode dizer quanto à Psicologia e à Medicina.
É razoável e até aconselhável que quando se desconfia de que há possessão, pensar em primeiro lugar, nas causas naturais e também nas doenças psíquicas. Mas a razão exige que se atenda à possibilidade de uma possessão. Um exame cuidadoso do caso deve estabelecer as causas do estado da pessoa. O fracasso da Medicina no tratamento do caso pode ser um sinal de possessão. Quando a Ciência desiste, é preciso que o caminho fique aberto ao exorcismo, ao remédio apresentado pela Igreja, conforme as ordens de Cristo: “Expulsai os demônios”(Mt.10,8). O erro, segundo o qual, Cristo estaria condicionado pela mentalidade do seu tempo, relativamente aos demônios, contradiz a Sua Divindade e deve ser rejeitado.

A Possessão é uma doença?

Fundamentalmente a possessão não é uma doença; no entanto, pode atrelar-se a uma doença. Muitas das vezes, as doenças dos possessos desaparecem com a expulsão do demônio e não podem ser combatidas pela medicina.

Que é exorcismo?

O exorcismo é o remédio da Igreja, que se esforça por expulsar o demônio pela oração, por leituras da Sagrada Escritura, por adjurações, intimações em nome de Jesus, uso da água benta, bênçãos, Sinais da Cruz, a imposição da estola, a imposição das mãos. Seria um erro pensar que basta um único exorcismo para expulsar os demônios. É um duro combate entre o exorcista e os demônios.

Estes repetem constantemente: “Nós não somos obrigados a partir já.” É por isso que também aqui é válido o aforismo: Deus tem a última palavra a dizer.

NOTAS

1) 1) Padre P. Sutler: «O poder de satanás e a sua ação.»
Editora Siegfried Hacker, Grobenzell, 7. ed. 1975. História dos pequenos possessos de Illfurt. Há tradução em francês na editora Résiac.
2) 2) P. Adolf Rodewyk, SJ: «A possessão demoníaca nos Tempos de Hoje.» o caso Magda. Edição alemã de Paul Pattloch, Aschaffnbourg, 1976.
3) 3) Johann Erni – Sermões do diabo – Nicolas Wolf, de Rippertschwand. Editora Siegfried Hacker. Grobenzell, 1975. Edição alemã.
4) 4) Teufelspredigt von Altoltting – Sermões do diabo de altoltting.
5) 5) Sobre o «Caso Klingenberg» ainda não há nada publicado em definitivo.



CARDEAL HOFFNER:
Entrevista* sobre as possessões.

SL – A trágica morte, no verão de 1976, da estudante de Pedagogia, Anneliese Michel, falecida após os exorcismos de Klingenberg, excitou violentamente os espíritos. Foi dito, então, que era inadmissível que num século civilizado, como o século XX, se pudesse ainda acreditar no diabo e na possessão. Os Padres que fizeram o exorcismo foram considerados co-responsáveis da morte da jovem estudante. O exorcismo devia ser legalmente proibido. Que é que o Sr. Cardeal pensa do caso?
JH – Têm que se fazer duas perguntas: 1ª - Existem de fato os espíritos malignos, a que nós chamamos demônios? 2ª - Esses espíritos podem exercer influência sobre o ser humano?
SL – Comecemos pela questão da existência do demônio. O Papa Paulo VI explicou na Audiência Geral de 15 de Novembro de 1972: «Sabemos que esse ser obscuro e perturbador existe verdadeiramente e que está sempre em atividade». Em 23 de Julho de 1976, o jornalista Hannes Burger, de Munique, comentava assim os ensinamentos do Papa: «Dum modo geral, podemo-nos sorrir ante tal discurso; aliás, patacoadas desse gênero há muito que são consideradas absurdas, mesmo pela Teologia Católica Contemporânea».
JH – Não vamos falar do tom presunçoso das palavras do Hannes Burger. Digo só que é falso afirmar que «a Teologia Católica Contemporânea» nega a existência dos espíritos malignos. Os professores Karl Rahner e Herbert Vorgrimler declaram que «a existência de forças e poderes malignos sobre-humanos e a sua ação no mundo» são «uma verdade de fé” (1). O professor Leo Scheffczyk, da Universidade de Munique declara por seu lado que, «na pregação de Jesus, satanás se apresenta como o adversário da obra de salvação» (2).
“Os diversos poderes – escreve o professor Heinrich Schlier, da Universidade de Roma – que só desenvolvem o único poder satânico, apresentam-se como uma espécie de poder individual” (3).
Joseph Ratzinger, da Universidade de Ratisbona, escreve: “o exorcismo, sobre um mundo ofuscado pelos demônios, pertence inseparavelmente à via espiritual de Jesus e coloca-se no centro da Sua mensagem e na dos Seus discípulos” (4).
Poderia ainda citar outros tantos teólogos, mesmo protestantes. Mas estes exemplos já chegam.
SI – Karl Rahner e Herbert Vorgrimler declaram que a existência dos espíritos malignos, é considerada “como ensinamento bíblico e do magistério eclesial” (5). Poderá o Sr. Cardeal esclarecer mais pormenorizadamente o sentido destas palavras?
JH – O IV Concílio de Latrão, no ano de 1215, resumiu dum modo perfeitamente claro os ensinamentos da Igreja: “No princípio do mundo, Deus exercendo a Sua Força Poderosa, criou do nada, as duas criaturas, a espiritual e a corporal, quer dizer, a angélica e a terrestre e, em seguida, a humana, que de certa maneira encerra em si as outras duas, pois é composta de espírito e corpo. Porque o diabo e os outros espíritos malignos foram criados bons por Deus. Eles próprios é que se tornaram maus” (6).
Este texto significativo compreende três afirmações:
1ª Deus criou tudo a partir do nada: os Anjos, o Universo e os Homens.
2ª Os espíritos malignos também foram criados por Deus, como seres bons, quer dizer, como Anjos. O mal não é uma estrutura fundamental do ser; não é uma força cósmica do ser.
3ª Estes seres tornaram-se espíritos malignos, quando se separaram de Deus.
O que o IV Concílio de Latrão ensina é a doutrina primitiva da fé Católica. Em 561, o Concílio de Braga declarava: “Se há alguém que diga que o demônio não foi criado por Deus, ao princípio, como um Anjo bom, que não é por natureza uma criatura de Deus mas que, ao contrário, saiu das trevas, que não tem criador, mas que é o princípio e a substância do Mal... que seja anátema. Se há alguém que diga que o demônio... produz pelo seu próprio poder a trovoada, os relâmpagos, as intempéries e a seca... que seja anátema (7).
Ainda muito recentemente, o Concílio Vaticano II declarava que Deus, por Jesus Cristo, «nos libertou da escravidão do demônio e do pecado»(8), e que a atividade da Igreja tem por fim, “a confusão do demônio” (9).
SI – O professor Haag declara que é anti-bíblico insistir na existência do demônio; que o Papa Paulo VI na sua alocução de 15 de Novembro de 1972, exerceu “pseudo-exegese” e interpolou os textos da Sagrada Escritura, “como nenhum estudante, no primeiro semestre, ousaria fazer”. Quando a Congregação para a Doutrina e Fé publicou, em Junho de 1975, o seu documento sobre “Fé cristã e demonologia”, o professor Haag declarou o seguinte: “Roma falou mais uma vez com rodeios”.
JH – Teólogos autorizados refutaram vigorosamente a censura de que era anti-bíblico sustentar a existência do demônio. O professor Joseph Ratzinger escreve: “não é como exegeta, como comentador da Sagrada Escritura, que Haag diz “adeus ao diabo”, mas como “homem deste tempo”, porque a existência do demônio é inegável. A autoridade, em virtude da qual ele formula a sua opinião, é a da sua filosofia moderna e não a intérprete da Bíblia” (10). Nas pregações de Jesus, satanás é o grande adversário que, no entanto, não tem qualquer poder sobre Ele (João 14,30), porque Jesus quebrou o seu poder: “O príncipe deste mundo está condenado”(João 16,11). Sem dúvida que satanás não está no centro da pregação de Jesus. Mas, “a luta contra o poder dos demônios” faz parte da missão de Jesus, que veio a este mundo, “para destruir as obras do diabo”(I João 3,8).
SI – O professor Haag afirma que “em todas as passagens do Novo Testamento, onde se fala de satanás ou do diabo, pode também compreender-se o pecado ou o mal” (11).
JH – De modo nenhum. Nas Sagradas Escrituras lemos: “O diabo peca desde o princípio”. Só uma pessoa dotada de espírito e inteligência pode pecar, e não o “mal”.
SI – O professor Haag afirma que nas Sagradas Escrituras o demônio é “uma personagem a fingir, sem entidade própria” (12); que, no Novo Testamento, o demônio aparece como “a representação do mal, de acordo com a mentalidade da época”; que Jesus e os Seus Apóstolos se movimentavam “nessa mentalidade da época, tal como o mundo que os rodeava” (13).
JH – No tempo de Jesus, a crença nos Anjos e nos demônios não fazia parte do Universo espiritual. Os saduceus, por exemplo, afirmavam “que não havia nem ressurreição, nem Anjos, nem espíritos” (Atos 23,8).
É preciso também acentuar que as Sagradas Escrituras condenaram severamente a magia e a quiromância, universalmente expandidas no mundo antigo. O Deuteronômio diz: “Não haja ninguém no meio de ti que faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha; ou se dê à prática de encantamentos, ou se entregue a augúrios, à adivinhação ou à magia, ou feitiço, ao espiritismo, aos sortilégios ou à evocação dos mortos. Porque o Senhor abomina aqueles que se entregam a semelhantes práticas. É por causa dessas abominações que o Senhor, teu Deus, expulsa diante de ti essas nações” (Deut. 18,10-12). Parece-me que estas advertências do Antigo Testamento são válidas para muitos homens cultos do século XX, que se entregam a tantas supertições.
SI – É possível que os espíritos malignos exerçam influência sobre os homens?
JH – As Sagradas Escrituras, no Novo Testamento, respondem afirmativamente: mencionam, com efeito, muitos possessos, que Jesus libertou dos espíritos malignos. Os professores Karl Rahner e H. Vorgrimler escrevem que não basta somente admitir a influência dos demônios nos casos onde há “fenômenos extraordinários”, mas também “na natureza e na história, em que existe uma cadeia normal, natural, explicável, de acontecimentos, uma dinâmica das forças demoníacas orientadas para o mal” (14).
O professor H. Schlier declara que as forças demoníacas “se podem tornar senhoras do homem e do mundo, no seu espírito, até penetrarem no seu corpo, para mostrarem nelas e por elas o seu poder”; diz ainda que “estas forças têm, em cada ser, um cúmplice: a sua tendência egocêntrica, a sua repugnância perante Deus e o próximo”; que, precisamente nos nossos dias, não nos podemos libertar da sensação de que o problema do mundo e da história, está mal posto (15).
Entre o Céu e a Terra há muitas coisas de que os “nossos homens cultos” não têm a menor idéia.

[Fonte: “Diabo, Possessão, Exorcismo”, em “Questões Teológicas”, nº 10, Outubro de 1976, edit. Joseph Kral, Abensberg



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