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7 de abril de 2009

Entrevista com Satã - Parte 5







Trevas - 401 Entrevista com Satã (5)

QUINTO ENCONTRO

Desta vez passou uma semana inteira na qual o Maligno não manifestou nenhum sinal de sua presença. Entre nós não se tinha dito tudo e com prazer esperava seu retorno. Preparava-me para recitar as Vésperas no meio da tarde quando o grande calendário holandês pendurado na parede da frente começou a balançar suas folhas como golpeado pelo ar.

“Em nome de Maria, diga-me de onde vem."

"Sua pergunta é idiota.”

“Por que idiota?”

"Porque eu não estou em nenhum lugar, não sou um corpo, uma carniça como você; sou espírito.”

“E o Inferno?”

“O inferno não é um lugar, não é um campo de concentração ou um tanque de fogo, como vocês pretenciosos o descrevem. O inferno sou eu. Somos cada um de nós. É um estado."

“Mas entre vocês, espíritos condenados, se conhecem?”

“Por que não? Nos conhecemos, nos odiamos, como odiamos a vocês, marmotas, como odiamos a Ele, vivemos confinados cada um numa solidão eterna, mas estamos de acordo em trabalhar para seu dano."

“Não vive para nada mais além disto.”

“Nossa essência é o mal, é a rejeição a Ele, é odiar a tudo e a todos.”

“A única satisfação miserável que lhe resta!”

“Não é nenhuma satisfação!“

"Não entendo, explique-se!"

“Vocês imaginam que odiar para nós, fazer o mal, destruir as obras dEle, seja uma satisfação, uma espécie de consolo, uma alegria. Também isto nos negou nosso inimigo. Nós fazemos o mal pelo mal. Atravessar o desenho dEle, arrancar-Lhe almas, especialmente aquelas que são mais queridas para Ele, não nos proporciona nenhuma satisfação, inclusive Ele nos faz pesar como se fora um castigo; mas exercitar nosso ódio, nossa natureza maligna é uma necessidade, ainda que atuemos por despeito, para fazer o mal a suas criaturas”.

“Todas estas belas coisas já sabíamos. Quem primeiro definiu quem é você foi Jesus. E a Igreja nos repete em seus ensinamentos. Os Santos nos põem em alerta. Sabemos que você é o Maligno, que é o inimigo por excelência, que é homicida desde o princípio, que é o pai da mentira, que é um mistério de iniqüidade, que é o príncipe deste mundo, até que Deus o consinta. Basta para descrever-lhe?”

"Talvez, mas com isto...?”

"Quer dizer que os homens, apesar disto, se deixam apanhar em suas redes... sei... Se refletissem sobre o que você é e sobre o que trama contra eles, estariam vigilantes... Por isso, de pai da mentira e de espírito das trevas, você se transfigura em anjo de luz; apresenta-se a eles como um refinado mestre de seduções e estende-lhes estas insídias de conselheiro galante. E ensinou, muito bem, esta arte também a todos os colaboradores, inclusive a certos eclesiásticos.”

* * *

“Você falou de almas muito queridas a Ele: Quem são?"

“Deverias sabe-lo! Aquelas mais unidas a Sua amizade. Aquelas que Ele consegue conservar sempre suas. Aquelas que trabalham e se consomem por seus interesses. As que buscam sua Glória, um doente que sofre por anos e se oferece pelos demais. Um sacerdote que se conserva fiel, que reza muito, ao qual não conseguimos jamais contaminar, que se serve da Missa - dessa tremenda e muito maldita Missa - para fazer-nos um mal imenso e arrancar-nos multidão de almas. Estes são para nós os seres mais odiosos, aqueles que principalmente prejudicam os assuntos de nosso reino”.

“Sabê-lo de sua boca é para mim um anúncio precioso.”

“É aquela que me obriga a dizer, que me faz responder a suas estúpidas perguntas.” (Note aqui a fraqueza de Lúcifer antes Maria: ele não diz, é Deus que me obriga a falar, mas sim é “aquela” que me obriga a dizer.)

“Continua ainda sobre estas revelações. Para seu despeito, não pode fazer-me senão o bem. As almas que você odeia mais...”

“São aquelas que nós pegamos mais fortemente de assalto. Fazer cair a um sacerdote nos recompensa mais que mil almas que nos arrancou outro. Envolver a um sacerdote na podridão da luxúria, fazer-lhe passar uma noite com uma prostituta e pela manhã mandá-lo celebrar Missa, mandá-lo ao confessionário, a sujar mais que a purificar, é um dos maiores desprezos que procuramos infligir a nosso grande inimigo. E conseguimos mais do que se crê”.

“Por desgraça. Mas junto a estas almas eleitas caídas, sei que Ele, no silêncio e no oculto, suscita muitíssimas outras que se imolam, que reparam e Lhe dão uma glória maior do que a que você crê ter-Lhe arrebatado."

"Não importa. Preocupa-me aumentar o número dos sacerdotes que passam para meu lado. São os melhores colaboradores de meu reino. Muitos ou já não rezam Missa ou não crêem no que estão fazendo no altar. Atraí muitos deles aos meus templos, ao serviço de meus altares, a celebrar minhas missas. Se visse que liturgias tão maravilhosas eu soube impor-lhes como ofensa grave contra a que celebram em suas igrejas. Minhas missas negras: celebrações de luxúria, profanação de hóstias e de vasos sagrados, profanados de tal modo que aquela não me permite descrevê-lo”.

Que imundícies tão belas! Leia meus rituais, estão impressos!”

* * *

“Você é o eterno macaco de Deus...”

"Esperei até estes últimos tempos para fazer as maiores conquistas entre os sacerdotes, os freis, as virgens consagradas a Ele… E seu número cresce de tal modo que se eu fosse capaz de alegrar-me, seria meu deleite maior.”

O que você diz é triste. Mas sei que uma só Missa oferecida a Deus em reparação de todas estas coisas horríveis Lhe dará uma satisfação infinitamente maior. O sacrifício infinito de Cristo repara suas profanações!

“Fala sempre de almas reparadoras; mas também estas eu sei como tratá-las; como desafogar sobre elas meu furor. Descarrego sobre elas um ódio que me recompensa de todo o dano que fazem a meus interesses."

“Sei: a história da santidade está cheia - na medida em que Deus o permite - destas intervenções malignas suas. Mas com que resultado? Que obtém disto?”

“Que posso cansá-las, abater sua resistência, levá-las à quebra.”

“Que você alcança? Deus o consente? Pelo simples feito de que Ele o deixa desafogar sua raiva contra estas almas, é sinal de que as fez invencíveis. E você – com suas vexações – colabora somente ao crescimento de seus méritos, trabalha contra si mesmo... Terá feito-as só mais santas, mais ricas de eficácia reparadora e conquistadora no mundo das almas. Quantas almas lhe arrebataram Catarina de Sena, Teresa d’Ávila, o Cura d’Ars, São Bosco, Padre Pio?"

“Ao menos me vingo e lhes faço pagar caro o dano que me fazem."

“Você é um péssimo calculador! Deus lhe permite porque colabora para demonstrar a potência de sua graça e para sua maior humilhação, porque todas as vezes que ataca estas almas, o vencido é você."

“Você, entretanto, denunciando estas minhas intervenções, somente alcançará fazer rir aos teólogos e doutores."

“Sobre isto eles não me preocupam em nada.”

* * *

Pausa. Parecia que tivesse ido. Enganei-me, porque começou a falar-me com uma nova carga de ódio e de desprezo.

“Você nunca poderá compreender quanto odeio a vocês os homens. Quanto os detesto e quanto são detestáveis. Gozam de um primado de dignidade sobre as bestas e são as bestas mais abomináveis. Seu ser me dá nojo. Considero-os piores que seus porcos. Crêem ser inteligentes e são muito estúpidos. Bastaria que visse o que os faço tragar por meio de tantos catedráticos postos ao meu serviço e que os presenteio, ocos de vã palavreado doutíssimo. Pensa no que os faço beber e digerir com minha prensa! Vocês, a mais nobre criatura Dele? São suficientes umas poucas porcarias para comprá-los. Vocês se rendem por nada aos elogios de meus mensageiros. Valorizam tanto sua liberdade e se deixam apanhar por meus mais ferozes negreiros. Ó, as fraudes que lhes estou fazendo em nome desta liberdade! Mostram horror pelo que é sujo e, dominados por suas paixões, revolvem-se em suas imundícies como porcos na lama. Por uma mulher e por um punhado de ouro se desunem que é uma maravilha”

Ganhou-os, muitos, Aquele que derramou seu sangue para redimi-los. Redimi-los de quê? Do pecado? Mas se mergulham tanto nele que se afogam! E que dizer quando desencadeio contra vocês o espírito da inveja, da maledicência, do ódio, da rivalidade, da vingança!"

"Cale-se, que está exagerando. Você generaliza muito. É a raiva invejosa que lhe tem cravado a sua condenação para toda a eternidade. Baste-lhe isto: Deus nos ama com todos os nossos pecados, Cristo nos redimiu e uma só gota de seu sangue nos purifica de tudo. E nós podemos amá-lo. Conta, se pode, as almas que O amam. Por uma só delas voltaria a dar Sua vida voluntariamente de novo. Enquanto você, maldito, se enfurece em seu ódio por toda a eternidade. Mas diga-me, que é a eternidade?"

"A eternidade? Agora... um agora sempre detido!...

E desapareceu.


SEXTO ENCONTRO[1]

Uma tarde nada mais entrar no quarto, fui pego de surpresa pelo imprevisto estrondo de um galope que manteve minha respiração suspensa e me fez compreender que se tratava dele.

“Desta vez veio com o propósito de assustar-me.”

"Se pudesse fazê-lo, saberia muito bem como fazê-lo tremer de medo. Você não sabe que tenho a força de fazer tremer toda a terra, se quiser. Tenho a força de agarrar esta bola do globo onde habitam e lançá-la contra os demais astros ou inclusive atirá-la numa das bolsas solares e reduzi-la a cinzas."

“Você disse: se quiser, mas exatamente é isto o que você não pode fazer. O mundo está nas mãos dAquele que o criou, não nas suas mãos, bufão! Sei muito bem que seria capaz de fazê-lo; mas, encadeado como está, não pode dar medo nem sequer a um menino. Uma vez mais, você é um cão atado a uma corrente. A inocência de um menino lhe dá medo como a espada flamejante de um arcanjo."
* * *

"Goza de sua segurança. Agora lhe digo que logo chegarão dias nos quais todo o mundo tremerá com meu avanço. Estou preparando uma desordem universal que você não pode imaginar."

“A bomba atômica?”

“Muito pior. Antes, e mais do que tudo isto, me importa o desconcerto da humanidade inteira, começando pela Igreja, que deve ser a primeira em desaparecer, esta duríssima Igreja Católica., que agora farei desaparecer num banho de sangue.”

"Se Deus lhe permitisse..."

“Sei: refugiam-se no velho versículo “não prevalecerão". Entretanto, prevaleceremos. Metê-la-emos no desconcerto, combatendo-a desde dentro.”

"Será talvez uma prova mais forte do que outras sofridas no passado. Uma nova grande maré. Depois o Senhor lhe dirá: «basta» e sobre suas ruínas resplandecerá de novo o sol de seu triunfo. Purificada, a Igreja florescerá como na primavera.”

“Entretanto, o golpe que estou preparando não será como os outros. Até agora, na Igreja, a qual apanhava de assalto, havia um ponto invencível de resistência que me fez perder muitíssimos ataques. Agora verá!"

“Faz poucas décadas inspirei a Lenin, um de meus melhores colaboradores, que para acabar com a religião era mais importante introduzir a luta de classes no seio da Igreja do que atacar de frente a religião. Trata-se de atuar dissolvendo, de formar focos de divisão entre os fiéis, mas sobretudo nos ambientes eclesiásticos e religiosos. Dividir aos bispos em dois blocos: os integristas e os progressistas. Rebelar os sacerdotes contra os bispos com milhares de pretextos. Atacar de frente a igreja como combatendo, para seu bem, suas estruturas antiquadas e os abusos que a desfiguram. Com hábeis golpes formar, nos ambientes eclesiásticos, núcleos insatisfeitos para atraí-los pouco a pouco ao clima fecundo da luta de classes. Adaptação lenta e paciente, com infiltração de novos conteúdos nas idéias tradicionais. Trata-se não de liquidar, num primeiro momento, a Igreja, senão de pô-la no dique seco, incorporando-a ao serviço da revolução comunista. O resto virá depois.”

* * *
Uma pausa alongada durante a qual olhava a minha Virgenzinha e mentalmente a invocava. A voz voltou com um tom rouco, raivoso como rugido de besta. O maligno sublinhava assim seus propósitos catastróficos.

“Agora estou preparando um assalto tático sobretudo contra aquele vestido de branco. Ele tem seus ativistas fanáticos. Faz-me rir. Que se atrevam a encontrar-se com os meus! Os meus escolherei sobretudo entre os seus. Serão as melhores alavancas. Começarei a fechá-lo pouco a pouco num isolamento completo. Induzirei setores inteiros da cristandade a abandoná-lo. Depois virá o assalto que o eliminará!"

"Fala com tal segurança que simplesmente lhe torna ridículo.”

“Com uma segurança, como pode ver, que não tenho nem o menor medo de revelar-lhe meus planos. Além do mais, que poderia você contra eles?"

"Orar ao Senhor para que lhe fulmine e para que a Virgem tenha bem guardado aquele vestido de branco, que é seu filho predileto.”

Ele respondeu com um palavrão e imediatamente voltou ao ataque:

“Num segundo momento, trabalharei um a um todos os párocos com respeito a seu pastor. Hoje o conceito de autoridade não funciona como antes. Consegui dar-lhe um golpe imprevisto e irreparável. O mito da obediência está já superado. Por esta via a Igreja será levada à pulverização. Enquanto isso vou adiante dizimando continuamente os sacerdotes, os freis até chegar a esvaziar totalmente os seminários e os conventos. Retirados do meio os assim chamados ‘operários da vinha’, se introduzirão os meus e terão via livre em seu trabalho definitivo.”

* * *
"Parece um estrategista rico em imaginação, não há nada que dizer. Exceto que programa tudo como se Cristo, o verdadeiro Chefe da Igreja, a tivesse abandonado para sempre e Ele estivesse novamente morto sem esperança de ressurreição. Você, bufão eloqüente, não ignora que a Igreja é Ele. Ela é seu Corpo místico. E sabe bem que atrás do pastor visível está Ele invisível e Ele é fiel à palavra dada: «Não tenham medo, disse, Eu estou com vocês até a consumação dos séculos». Prova e verá, terá que se encontrar com Ele e fugirá ante sua presença. Além disso, está Maria, Ela é a Mãe da Igreja e basta um sinal seu para ter paralisado a todos os exércitos infernais.”

“As costumeiras velhas intrigas. Todas estão postas em frases feitas. Todos estão adestrados no uso destes temas comuns. Hoje, os primeiros a rir-se destas frases feitas são seus sacerdotes, seus doutores, aos que eu inchei com o espírito do orgulho e com o espírito da rebelião. Olha como souberam mudar o mofo teológico pelos grandes ideais da história. Preparei e levei meu bando a sacerdotes politiqueiros, sacerdotes que não rezam Missa alguma, sacerdotes festeiros, que assiduamente freqüentam certos grupos errados, à caça de encontros galantes, e quando em torno deles surge o escândalo, em vez de envergonhar-se como antes, se vangloriam com alegria, e se sentem felizes de ter-se libertado de pesos insuportáveis. Sem falar dos sacerdotes que só pensam em fazer dinheiro! Todos estes são meus melhores operários."

Você recorreu já no passado aos mesmos caminhos e Deus lhe deixou obter também algumas conquistas. Entretanto lembre que, quando parecia que a praga ia gangrenar e estender-se a todo o corpo, Ele interveio sem mobilizar contra você exércitos espetaculares, senão trabalhando com uns poucos, no silêncio.

Você conta com a massa, Ele conta com uns poucos. Quantas vezes Ele nos fez ver que serve mais à Igreja um pequeno número de autênticos sacerdotes e religiosos, cheios de espírito evangélico verdadeiramente impregnados de fermento evangélico, impregnados de Amor e fervor, preparados à renúncia, dispostos ao sacrifício total, quero dizer: Ele conta com uns poucos santos mais do que com uma massa de sacerdotes burocráticos, secularizados, embebidos no mundano e mulherengos. Deus lhe presenteia, não sabe que fazer com eles, Ele se servirá de uns poucos, mas serão seus, e com estes restaurará sua Igreja”.

“Estou certo de que se dará conta de que hoje na Igreja se encontra trabalhando uma boa frente de almas silenciosas, não importa de que condição nem raça, especialmente sacerdotes e religiosos, que se preparam para combater-lhe. Muitos deles se unem em nome de Maria, procedem de ninhos de oração e de amor à Igreja, e de obediência ao Papa. Trabalham por uma Igreja consolidada em sua unidade e aceitam toda renovação legítima, mas rejeitam as inovações arbitrárias, e estão persuadidos do serviço insubstituível do Pontífice romano e se agarram ao seu entorno como ao único princípio verdadeiramente sólido de sua unidade. Esta persuasão também vai fazendo caminho secretamente entre alguns irmãos separados."

“São almas silenciosas que, ao invés de agitar-se, trabalham ao invés de proclamar discursos eloqüentes, oram; ao invés de pedir reformas continuamente, se reformam. São almas escondidas, das que seria difícil fazer uma estatística, mas se sabe que existem, realmente se encontram por todas as partes, e se reúnem em grupos de oração e fraternidade. Talvez nunca como hoje florescem tantos Santos na Igreja. Quantos grupos de almas fervorosas vemos surgir ao serviço da Igreja! Ela conta com estes grupos, em sua capacidade de fermentar a massa. São as revanches da generosidade divina a favor da igreja. Almas que trabalham num apostolado capilar, que vão descobrindo a face de Cristo no exercício da Caridade aos seus irmãos, os pobres, os marginalizados, os mais necessitados."

“Não, espírito rebelde! O balanço da ação de Deus no mundo e na Igreja não é um fracasso. O curso de sua ação não está paralisado por suas sabotagens. A Igreja tem direções e brotos que são invisíveis e distantes; mas Ele está atuando sempre nela. Invencível é Ele! Invencível é Ela! E você o sabe, você o crê e você somente pode aproveitar ao máximo o tempo que contudo lhe resta para fazer o mal. O dia em que novamente escute com pavor "Quem como Deus?", será o dia de sua derrota definitiva. Para sempre!"

A esta altura meu interlocutor já se tinha ido.

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