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3 de abril de 2009

Entrevista com Satã - Parte 2




PRIMEIRO ENCONTRO

Naquela mesma tarde, depois de um jantar rápido e sem apetite, retirei-me ao meu quarto para verificar um pouco a correspondência.
Depois de meia hora, pus-me a recitar a última parte da "Liturgia das horas». Fiz devotamente o sinal da Cruz e comecei: 'Jesus, luz da luz, - sol sem ocaso, -tu iluminas as trevas, - na noite sol mundo,- Em Ti, Santo Senhor - buscamos descanso- da fadiga humana, - ao fim do dia"...
Notei desta vez, que quanto mais ia adiante, mais crescia em mim o desejo de atrasar aquela oração habitual. Sentidos e gostos novos fluíam daquelas palavras antigas e simples.
Ao final, beijei o breviário e coloquei-o à parte. E agora que faço? Algumas vezes tomo notas rápidas em meu diário; tentei fazê-lo mas logo me passou a vontade.
Voltando-me, meu olhar se encontrou com a imagem da Virgem, ante a qual aquela tarde havia ido a orar. Tive desejos de entreter-me com Ela e, apanhado o rosário do bolso, fiz o sinal da cruz. As Ave Maria me pareciam dulcíssimas como se entrasse em contato com Ela. Não tinha terminado ainda a primeira dezena, e já me encontrava sentado e com a caneta na mão. Coisa estranha? Para fazer o quê? Um bloco de papel estava ali sobre a mesa: Começar a escrever algo sobre aquela diabrura? Não pensava nisto de maneira alguma. Não tinha nada concreto em minha cabeça e a imaginação não parecia ajudar-me.
Para fazer qualquer coisa, peguei o bloco de papel e escrevi no alto: «Entrevista com Satanás". Não, corrigi. Melhor dizer: «com o Maligno". Este segundo apelativo é menos comum e de um sentido mais imediato. E permaneci com a caneta no ar.
Naquele mesmo instante, senti ao longo da coluna vertebral uma repentina tremedeira de frio que imediatamente me envolveu por inteiro.
Ao lado da escrivaninha, à esquerda, a janela estava completamente aberta, instintivamente me levantei para fechá-la. Senti, entretanto, que de fora vinha um ar quente. Era a tarde de uma jornada calorosa de setembro.
Enquanto tocava a face e a testa, olhando se tinha sintomas de febre, um golpe de frio me atravessou e tive uma estranha sensação de medo. Sentei-me, permaneci um pouco pensativo, depois tentei deitar na cama. Não consegui mover-me. Sentia-me pregado à escrivaninha, não porque alguém me forçasse, sim por uma sensação de inércia total: uma espécie de torpor.
Invoquei mentalmente a Virgem que me olhava a uns metros de distância da parede e senti um instante imprevisto de paz.
Enquanto em meu interior dava graças à Mãe Celestial, a cadeira, a escrivaninha, quase todo o quarto, sofreram um sobressalto misterioso.
"Você pediu para entrevistar-me, aqui estou.”
Era uma voz cavernosa, áspera, metálica. Uma voz que não soube precisar de que ponto vinha, mas que desencadeou em mim um grande e forte calafrio de medo. Permaneci alguns minutos sem respiração, depois recuperei as forças.
“Mas quem é?"
“Não seja burro, sou eu!"
Não havia pensado nunca de poder passar com minha entrevista do plano da imaginação ao de um cara a cara com o Maligno.
Num ângulo da escrivaninha havia um rosário e instintivamente o peguei como se fosse uma arma de defesa,
"Joga fora esta besteira, se quiser falar comigo!”
“Besteira?..."
"Excrementos de cabra colocados juntos!”
Se para você é uma besteira, eu o beijo e para seu desprezo o enrolo ao redor do meu pulso, como defesa. Vejo que lhe dá medo, velhaco!
Isto para mim é uma guilhotina!...
“Melhor ainda, e obrigado por ter-me dito!”
Tentei muitas vezes explicar-me como percebi aquela voz tão próxima, que não vinha de nenhum ponto preciso do quarto nem saía de meu interior. Entretanto, compreendia-a claramente, sempre num tom ameaçador, desdenhoso e carregado de uma raiva especial.
“Como é que você veio? Quem lhe envia?”
"Fui obrigado".
“Por quem?” Seguiu um silêncio tenso.
“Vamos, obrigado por quem?”
“Por aquela!”
“Gritou esta resposta com um desprezo e com um ódio indescritíveis."
“Quem é ela?" Entretanto, havia compreendido.
“Não direi seu nome jamais!”
“Te queima tanto?”
"Odeio-a infinitamente!"
“Porque é a criatura mais elevada e mais santa…”
Mastigando as palavras com raiva: "Ele quis assim para meu desprezo, para que fosse minha mais esmagadora humilhação!”
Fiquei aturdido. “Como é possível? É o pai da mentira e diz uma verdade tão grande? Não se dá conta que este é um louvor imenso?” Minha pergunta ficou sem resposta. Desta vez foi tudo.

SEGUNDO ENCONTRO

Passaram-se alguns dias sem que nada de novo acontecesse. Não sabia o que pensar. Não tinha a coragem de invocar a volta de um interlocutor tão singular. Aquele primeiro encontro havia deixado mais de uma pergunta no ar. Mas foi cortado no melhor. Aquela última resposta, entretanto, tão inesperada, deixou-me numa alegria grande.
Uma manha, apenas havia terminado de celebrar a Missa, tive um desejo insólito de ir rapidamente para casa. Empurrava-me o estranho indício de algo não costumeiro.
«Aquele mensageiro deve estar já aqui, pensei. Correto, eis aqui os costumeiros calafrios de frio gelado. Não havia me enganado.
Sentei-me, invoquei mentalmente a Virgem e esperei.
"Estou aqui. Que mais você quer perguntar-me?".
Parece que aquele ser tenebroso houvesse sido posto a minha disposição.
“Antes de mais nada, devo agradecer-lhe o grande elogio que na última vez você fez à
Virgem. Impressionou-me muito sua resposta. E ainda não chego a explicar-me como se lhe pôde escapar”
“É ela que me obriga a falar assim, entende? Ela me obriga. Fá-lo para contentar-lhe e para humilhar-me. Mas você – lembre-se - me pagará. Você não chega a compreender jamais que tortura é para mim ter de obedecê-la obrigando-me a dizer certas verdades. Eu odeio a verdade, porque a verdade é Ele, entende? Você permanece horrorizado ante os tormentos aos que tantos subalternos meus submetem seus condenados políticos, recorrendo à pílula da verdade, à lavagem cerebral - todos são invenções minhas, para que saiba - para levá-los à auto-crítica e a arrancar-lhes suas confissões preestabelecidas. Pior é o suplício ao que sou submetido por aquela para levar-me a cuspir-lhe na cara certas verdades. Por isto, repito-lhe que você me pagará”.
"Obrigado também por isto que me diz; mas se Ela está comigo, você não me dá medo”.
“Disse-lhe que você me pagará".
"Certo. Mas continua falando-me dEla".
"É minha inimiga mais implacável".
“Acredito: É a Mulher destinada a dar-nos Jesus, nosso Redentor, o reparador de todas suas maldades, especialmente por haver-nos dado o pecado e a morte. E Ela, por virtude de seu Filho, para sua humilhação, venceu tudo isto".
Um grande silêncio de espera.
“Compreendo que não tenha muito desejo de falar de Maria. Você é infinitamente soberbo e a recordação dEla é muito humilhante para você. Disseste bem, é sua maior humilhação. Mas, em nome dEla, responde. Você creu ter obtido uma vitória plena arrebatando-nos a nossa mãe Eva? Nem sequer suspeitava que Deus lhe teria vencido com Maria? Uma Mãe infinitamente maior que a que nos arrebataste e com a qual nos mandaste à ruína. Deus nos deu Maria e a fez Sua Mãe".
"Mas por que se empenha tanto em falar-me daquela? Pára já!”
Exatamente porque lhe aborrece tanto...
“É uma terrível destruidora de meus planos. É uma devastadora de meu reino. Não me deixa conseguir uma vitória e já me prepara uma derrota. Está sempre em meu caminho. Sempre ocupada em atravessar em meu caminho, em suscitar fanáticos, que a ajudem a arrebatar-me almas. Ali onde mais clamorosas são minhas conquistas, num silêncio capilar ela multiplica as suas. Mas agora chegou o tempo em que obterei sobre ela vitórias jamais vistas..”.
"Efêmeras como as demais!”

* * *
Ainda um breve silêncio. “Não serão efêmeras!... Desta vez será uma vitória total. Acreditava estar seguro numa fortaleza inalcançável. Agora abri-lhes uma brecha que será pior do que a primeira!...
“Que brecha? Penso que corre muito. Está muito seguro de si mesmo"
“Tenho de minha parte também os teólogos. Os meus vaidosíssimos doutores. Se eu fosse capaz de amar, seriam meus amigos mais queridos. Seus cultivadores do dogma vão abandonando suas posições uma depois da outra. Induzi-os a envergonhar-se de certas fórmulas ridículas. A envergonhar-se antes de nada de crer em minha existência e em meu trabalho no meio de vocês: Coisa para mim comodíssima"
E você conta com isto?
«Deste modo, as fábulas da Imaculada Conceição, da Maternidade Divina, da sempre Virgem, da onipotente cheia de graça estão sendo desmoronadas como miseráveis disparates. Dentro de poucos anos ficará só a recordação – vergonhosa recordação - de lendas tão bobas. Muito tive que esperar mas agora chegou finalmente meu tempo. Definitivamente chegou minha hora! Se soubesse o bem que trabalham meus aliados: padres, freis, doutores!... Onde estão agora os fanáticos de seu culto, seus simpatizantes fervorosos?”

* * *
Parecia que tivesse ido embora. Mas estava ali, talvez à espera de minha reação.
“Eu sei: você conseguiu reunir em torno de tantas verdades do Credo uma poeirada irrespirável cheia de confusão. Acredita suprimir o sol só porque o escondeu detrás de muitas nuvens. Mas tudo isto passará. Bastará um sopro do Onipotente para destruir tudo o que você está construindo. Um sopro só e Deus, em sua Providência, também de novo tirará o bem do mal. Inclusive destas confusões saberá fazer brilhar a verdade ainda mais esplêndida”.
"Não se iluda".
Sei que não me engano. A fé me diz. Nem você mesmo, eterno mentiroso, crê nesta vitória final.
Você se agita porque sabe que Deus tem medido o tempo no qual, para seus desígnios, deseja-lhe exagerar. Você sabe que o mais poderoso é Ele. Ele tem adiante de Si a eternidade. Num instante lhe arrebatará da mão suas vitórias momentâneas. Você é o eterno fanfarrão ridículo. Você se crê onipotente, melhor ainda quer fazer você mesmo crer, mas basta um sinal da cruz para por-lhe em fuga, basta um pouco de água benta para paralisar sua onipotência. A parábola do grão e da cizânia foi dita sobretudo para você. Você é simplesmente ridículo em suas gabações. Você é um pobre cão atado a sua corrente. Você não pode nada além do que lhe permite Deus. Permite-lhe para provar aos seus eleitos no tempo, e derrotar-lhe para toda a eternidade”.
“Que eloqüente você é! Fez uma bela pregação para os papagaios da paróquia. Você reúne palavras, eu conto fatos".
“Estou apenas revelando sua mentira. Sua história terminará como começou. Você tem a estúpida presunção de crer-se semelhante a Deus. Rebelou-se e Deus naquele mesmo instante, com um sopro precipitou a você e aos seus nos abismos infernais. Bastou um movimento de Sua vontade para fulminar-lhes a todos, para transformar-lhes de anjos em horríveis demônios".
“Ainda um pouco de pregação.”
"Você sabe bem que não é pregação. É um fato tremendo. Como tremendo é o inferno no qual você se precipitou... A propósito: Que é o inferno?..."
Um silêncio triste como um pesadelo.
“Em nome dEla, responde, fala-me do inferno".
“Impossível dizer-lhe".
“Prova”.
“Nem sequer ela mesma, em Fátima, soube explicá-lo”.
Como? Aqueles pobres meninos por pouco não morreram de pavor!
"E que viram... o inferno é bem diferente... Contente-se com isto.”

* * *
Também desta vez tive a suspeita de que se tivesse ido. De maneira estranha me advertiu que se encontrava ali.
“Desgraçado! Você era um anjo. Deus lhe criou riquíssimo de dons e de belezas divinas. Tinha a inteligência dos espíritos eleitos. É inconcebível como você e os seus possam atrever-se a um pecado tão estúpido de rebeldia. Como tentar apropriar-se do que não era seu? Responde!”.
“Porque quis submeter-nos a uma prova infinitamente humilhante para nós, espíritos altíssimos. Uma prova inimaginável, digna só de uma revolta”.
“Que prova?"
De novo um silêncio carreado de mistério. "Vamos, em nome dEla que te obrigou a vir, responde. Que prova?".
"Impôs-nos um ofício muito humilhante e inaceitável. Pôs-nos em frente ao desenho da criação do mundo material, de todo o cosmos, por cima do qual criou também a vocês os homens com o propósito de elevá-los à mesma dignidade a que nos havia elevado, e para cúmulo de tudo, o que fez desencadear nossa revolta… pôs-nos diante da encarnação do Filho, feito homem, revestido de uma natureza inferior à nossa, e impôs-nos adorá-Lo. Nossa inteligência se assombrou. Milhões de anjos se submeteram vilmente a Ele. Muitíssimos de nós O vimos como uma afronta a nossa dignidade e nos rebelamos. O castigo explodiu de imediato. Nós não queremos aceitar nossa condição de criaturas, de ter necessidade dEle, de estar submetidos a Ele. Acreditamo-nos auto-suficientes - e éramos - de nós mesmos... Naquela recusa nosso gesto é de revolta... E num momento nos encontramos como somos. Sua sentença foi sem apelação". Tampouco nos houvéssemos submetido a Sua vontade.
“E não era um pecado gravíssimo de rebeldia?”
Um «Nãooo…” tenebroso, longo, cavernoso, de gelar o sangue, ressoou um bom tempo no além. Compreendi que havia desaparecido, deixando atrás um fracasso que parece o estrondo de uma avalanche. Tudo o que estava firme tremeu. Saí ao corredor olhando se alguém tivesse percebido algo. Nada. Não vi ninguém.








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